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As esmolas do amor.

Por Tiago Soraggi

Nunca diga “eu te amo” esperando ter um “eu te amo” de volta…

É o grande erro da humanidade. O erro dos desarmados, que usam de sua própria frase para externar tua compra sentimental. Mal sabem eles que não estão tão desarmados assim. O chicote que sai de suas bocas é uma das armas mais poderosas que existe… para o suicídio. Nunca diga que ama a alguém na intenção de comprá-lo. O teu “eu te amo” não é um presente, “eu te amo” já é uma caixa desembrulhada, sem fitas, sem descobertas, sem surpresas, não agrada, não é um agrado. Eu te amo é um baú vazio de reminiscências que não aconteceram. É uma utopia.

Desde os primórdios Deus disse: Fazer o bem sem olhar a quem… O que isso, de verdade, significa? Não venho aqui tratar sobre máximas gregas e nem sobre o apoio musical, tantas vezes recorrido como última instância a um coração apaixonado. Não! Não venho aqui tratar de orgulho, não tenho a capacidade de interrupção de Annie Lennox nem mesmo a utópica anti-capitalista e pró-amorosa de Tim Maia. Sou apenas um igual a você que já disse eu te amo com os olhos brilhantes, carentes, felinos e de coração aberto e recebeu o silêncio gélido do agradecimento, talvez um pequeno enrugar de algum lado dos lábios já beijados intensamente, talvez um piscar de olhos, uma menear de cabeça como consentimento de ter ouvido, mesmo que por um segundo, tempo suficiente para a frase sair pelo outro ouvido e não voltar aos teus.

Amor não vale nada que entendamos.

Amor não é catalogado, não tem valor de compra. Amor não serve como produto.

A partir de agora, não faça mais nada pelo objeto amado. Não o agrade. Não pense em lojas e nele no manequim com sorrisos de agradecimento. Lembre-se do vidro frio das lojas que separam você da tua ilusão gratuita, da gratidão a você que não será gratuita. E te custará muito mais do que a paralisação de um manequim. Talvez o boneco nem esteja mais em exposição, talvez o vidro tenha ficado escuro demais, cuidado para não anoitecer e o teu comércio do peito não for o único estabelecimento aberto esperando por novos manequins imóveis e frios. Não se ponha num vidro.
Não mentalize que os dias, maravilhosos ao lado de quem você ama, estão sendo prorrogados por sua utilidade e esforço. Não vá por este caminho. Não abra as portas aí do meio, no teu peito, da tua casa. Pois ele, o teu amor, nunca esteve desabrigado.

Eu fiz por você, eu saí por você, eu parei por você, eu continuei por você, eu morri por você… Por que nós seres humanos somos tão prostituidores de si mesmo. Por que vendemos a nossa bondade? Por que achamos que a nossa bondade pode substancialmente mudar alguém? Gratidão, não queira. Não queira ser objeto de piedade, pois já não será mais amor, será piedade. Portanto, se você fez, saiu, parou ou continuou, morreu… Foi por auto-piedade, não por amor. Por amor seria por amor e não por mais nada e não por mais ninguém.

Ao preparar a comida, ao passar a roupa, ao dar o presente, ao se entregar nu e desprovido de toda segurança você fez por auto-piedade, por gratidão.

Lembre-se: Nossa bondade não muda ninguém. Nossa bondade é a sorte do objeto amado e não uma dívida. Nunca cobre, nunca lance feroz sobre o algoz algo feito por você. Você fez porque você quis fazer, você fez pois ali estava recorrendo da auto-piedade e da piedade alheia. Você fez porque você é bom, amoroso, disponível e só. A responsabilidade ou culpa, depende da tua maturidade escolher uma delas, é tua. Cuidado para que as pessoas não se aproveitem da tua ambição, uma vez com intenção, uma vez errado.

Quando você fez todas as coisas inimagináveis havia uma arma apontada para tua cabeça? Que arma era essa? Os desprovidos de arma são os que são amados, pois os que amam têm uma arma perigosíssima e apontada para a própria cabeça o tempo inteiro. A arma somos nós mesmos, nos apontamos para nós mesmos, nos atiramos, morremos.

Já ouvi diversas vezes a pergunta: por que você não responde que me ama? Ora, a resposta deve ser obtida no olhar. O olhar dirá: porque não sinto, não naquele momento, não nunca, talvez nunca. Mas o foco, específico, claro que cismamos em não seguir, é que o amor é mudo. É foco, é direção, é olho e não palavras, sons, provas físicas.
Só o olhar dirá. Somente os olhos são capazes de te dar respostas, somente a luz dos olhos é que preencherá tua carência.

Tua carência é escuridão e não silêncio.

O que você espera de alguém que responda a um “eu te amo”? Obrigado? Um pouco mais do que isso com certeza… Ok! Então um muito obrigado para você.

Não queira amor por gratidão.

Amor é sensação, é tocar e arrepiar-se, é presentear porque ela fica bonita no vestido e te agrada vê-lo com aquela camisa de corte novo. Amor é ver sorriso. Amor é admirar a forma da pessoa caminhar, contra ou do teu lado, o amor é junto, comendo, dormindo, o amor é a saudade despertada na ausência. O piscar de seus olhos, os olhos adormecendo, as mãos, o hálito, a transpiração. O amor é luz invisível, sentida. O amor não é ele ou ela, é a sua perspectiva por essa pessoa e não na pessoa. É o teu foco, o teu ângulo, a tua visão. É teu apenas teu e não da pessoa. O amor não sai, ele permanece sempre dentro. É o sentimento mais interno e mais profundo de nossas almas.

Amor é a maravilha de estar fazendo e não a finalização do ato feito. Amar é estar amando e não ser amado. Deixe para o outro lado a incumbência de ser feliz amando-o e não esperando amor.

Amor é dar a sua vida, a vida é o único presente, o mais fantástico ponto de amor em que você não estará mais lá para receber o mesmo. Morrer é a maior prova, pois não permite gratidão, devolução. Como esperar o mesmo quando se morre por alguém? É o movimento de maior entrega e maior amor. Enquanto não se importar em estar morto por quem você ama, tome cuidado ao dizer “eu te amo” se não for por si mesmo.

Por amor se faz por si.

Não mendigue amor dando esmolas a quem você ama.

Te desejo que todo o amor do mundo nasça de você.

Tiago Soraggi

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